ASAS PERDIDAS

Blog de poesiawm :Poemas de Wender Montenegro, ASAS PERDIDAS

De onde vem esse conluio de pássaros?
Volúpia de vozes se arrastando em transe
a febre em delirium tremens
salão sem chão da loucura;
rumor que escorre entre as dobras,
fendas de ventos e búzios;
os espaços devorados pelos incêndios do verbo
que encurta os passos da culpa;
o medo que nunca adestra sua matilha de gritos
vociferando latidos às escâncaras da noite...
Para onde vão essas asas?


[Imagem de Liu Yuanshou]

terça 28 fevereiro 2012 07:49


REVISTA TRIPLOV de Artes, Religiões e Ciências Nova Série | 2012 | Número 23-24

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WENDER MONTENEGRO


Sete poemas



SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO

 

Não dizer palavra...

Deixar o silêncio plantar sua nódoa

na cinza dos olhos.

E uma sombra há de vir,

insustentável,

e despojada de dor e remorso e cansaço

trará numa das mãos linho novo,

alfazema;

na outra, conchas de praia deserta,

frutos da estação,

e ainda sem dizer palavra

acenderá os cílios com o sal das águas

de uma outra concha,

essa mão que rasgará silêncios,

tatuando na pele uma palavra gasta.

 

MEA CULPA OU PROFISSÃO DE FÉ

Ao poeta Francisco Carvalho

Semear poeiras e andrajos de esperas

dissecar os ossos das metáforas

acender espantalhos no amarelo das espigas.

 

Decantar o silêncio que sustenta o cais

ostentar um colar de metonímias

despir a voz da louca, cuja febre anuncia

um evangelho apócrifo.

 

Caminhar sob pedras como por milagre

ouvir a foz rouca dos rios da infância

borrifar no azul as flores do arco-íris.

 

Pintar um verão vazio de andorinhas

se encharcar de sol e devaneios

hastear um lenço sujo de saudade

ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.

 

TECIDO DE ESPERAS

 

O olhar colhe asperezas...

Nenhuma alma de regresso às mãos

cansadas de tecer esperas;

nenhuma nau singra a saudade

e a tessitura é desfeita

pela ausência de abraços.

 

ABSTRATO EM LUZ E MEDO

 

O medo é a alma dizendo onde dói

pássaro conduzindo léguas

sob asas feridas.

 

É grito de Munch sangrando a moldura

expressão da face à beira-morte

quando um anjo anuncia o delírio.

 

É o temor do cântaro ao desuso

jardins plenos de sede e gerânios

cardumes de espectros

pescando crendices nos rios da noite.

 

Há mel e fé na colmeia do medo

e os anjos terríveis de Rilke

pintam de ferrugem cada luz e riso;

semeiam gerânios sobre cada grito.

 

INVENTÁRIO


O brasão está posto nas cãs da matriarca

as chaves da terra

penduradas no peso dos anos

lhe enferrujam a voz.

 

Sete línguas mastigam as léguas do tempo

sete reses ruminam as vozes dos mortos.

 

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.

Inocente ainda e derradeiro herdeiro

apenas deseja palmilhar um sonho

nas léguas do seu chão

de berço.


TEMPO DESCARRILHADO


Ao poeta Mário Gomes

Esses olhos que a terra não deseja

hão de comer a vastidão da terra

plantar no solo o sêmen de seus rastros

cravar na pedra o seu punhal de febre,

sonho pleno de pedra.

As algemas de sangue, solidão e medo;

o luminoso terror noturno...

Há tragédia em cada ato

no tempo descarrilhado

e um gosto de eternidade.

 

POEMA-FOGO PARA HERBERTO HELDER

 

Impossível ver seu rosto de homem

pentecostes na voz em meio à sarça ardente

seiva bruta na saliva que irriga lavouras

de poemas e ostras e algas

do mar da Madeira. Ilha de mistérios

onda a levedar no pão de cada lua

ofício cantante em harpa de ouro e trigo

louros ressequidos pelo sol selvagem

de seu autoexílio.

 

Impossível ver seu rosto em bronze

diamante polido pela mão de um anjo

a gritar: – Ó zona de baixeza humana!

Mítico maldito em estado selvagem

o olhar varado pela flecha de prata

do menino-bardo;

cordão umbilical atado a tudo

que o tempo lavrou em vil caligrafia:

 

fogueira e monturo no buço da noite

cabelos de plantas descendo os adobes

ressaibos de dores nos poros do amor

explosão do átimo de Deus

lavas de dragão incinerando a pátina

vulcão regurgitando a própria entranha

escarrando pro céu o cuspe de sua alma.

 

Impossível não ler Herberto em chamas.

 


Wender Montenegro (Brasil, 1980) nasceu na Lagoa da Luz e mora na Boa Esperança, Trairi-CE. É poeta e professor de História. Em 2008 publicou seu primeiro livro de poemas, Arestas, pela All Print Editora - SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia. Tem concluído um segundo livro de poemas, intitulado Casca de nós, a ser lançado em breve.
Wender mantém um blog onde posta seus poemas:
www.poesiawm.arteblog.com.br


terça 28 fevereiro 2012 07:41


MIRANTE MÍOPE

Blog de poesiawm :Poemas de Wender Montenegro, MIRANTE MÍOPE

Escalo o corpo,
seus degraus de sol...
As mãos,
limpas de barro,
semeiam lavouras
e luas,
os pés tateiam fugas
e alvoradas,
o sexo incendeia
o incenso da carne,
a boca acende à febre
das canções.
Cerrados, os olhos
descerram a paisagem
àqueles que vêem o amor
se jogar feliz
do topo de um mirante
míope...


[Imagem de Vladimir Kush]

terça 28 fevereiro 2012 07:08


SANTO CRISTO!

Blog de poesiawm :Poemas de Wender Montenegro, SANTO CRISTO!

É só um menino
sozinho na selva
dançando ciranda
com lobos e armas;
um crack sem bola
na vida de pedras
tão cheia de faltas...

Era só um menino,
e gostava de música.

terça 27 dezembro 2011 12:48


PERDÃO

Blog de poesiawm :Poemas de Wender Montenegro, PERDÃO

Era de sol seu abraço.
Colo de nuvens
onde a dor serena.

terça 27 dezembro 2011 12:44


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