WENDER
MONTENEGRO
Sete
poemas
SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO
Não dizer palavra...
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.
MEA CULPA OU PROFISSÃO DE
FÉ
Ao poeta Francisco Carvalho
Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.
Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.
Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.
Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.
TECIDO DE ESPERAS
O olhar colhe asperezas...
Nenhuma alma de regresso às mãos
cansadas de tecer esperas;
nenhuma nau singra a saudade
e a tessitura é desfeita
pela ausência de abraços.
ABSTRATO EM LUZ E MEDO
O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.
É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.
É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.
Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.
INVENTÁRIO
O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.
Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.
E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.
TEMPO
DESCARRILHADO
Ao poeta Mário Gomes
Esses olhos que a terra não deseja
hão de comer a vastidão da terra
plantar no solo o sêmen de seus rastros
cravar na pedra o seu punhal de febre,
sonho pleno de pedra.
As algemas de sangue, solidão e medo;
o luminoso terror noturno...
Há tragédia em cada ato
no tempo descarrilhado
e um gosto de eternidade.
POEMA-FOGO PARA HERBERTO
HELDER
Impossível ver seu rosto de homem
pentecostes na voz em meio à sarça ardente
seiva bruta na saliva que irriga lavouras
de poemas e ostras e algas
do mar da Madeira. Ilha de mistérios
onda a levedar no pão de cada lua
ofício cantante em harpa de ouro e trigo
louros ressequidos pelo sol selvagem
de seu autoexílio.
Impossível ver seu rosto em bronze
diamante polido pela mão de um anjo
a gritar: – Ó zona de baixeza humana!
Mítico maldito em estado selvagem
o olhar varado pela flecha de prata
do menino-bardo;
cordão umbilical atado a tudo
que o tempo lavrou em vil caligrafia:
fogueira e monturo no buço da noite
cabelos de plantas descendo os adobes
ressaibos de dores nos poros do amor
explosão do átimo de Deus
lavas de dragão incinerando a pátina
vulcão regurgitando a própria entranha
escarrando pro céu o cuspe de sua alma.
Impossível não ler Herberto em chamas.
Wender Montenegro (Brasil, 1980) nasceu na
Lagoa da Luz e mora na Boa Esperança, Trairi-CE. É poeta e
professor de História. Em 2008 publicou seu primeiro livro de
poemas, Arestas, pela All Print Editora - SP, com o qual foi
indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia. Tem
concluído um segundo livro de poemas, intitulado Casca de nós,
a ser lançado em breve.
Wender mantém um blog onde posta seus poemas: www.poesiawm.arteblog.com.br
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