É preciso fazer um poema sobre Ipanema...
Um poema que sabe a sol posto
- hóstia de ouro na boca do poente -
e que espalhe entre o rumor das gentes
o pólen das mãos.
Um poema de pedra, de sonhos, de sais,
de águas bebendo milhares de sóis;
um poema-arpoador,
embebendo em luz e azul
a dor cinza das retinas.
É preciso palmilhar os rastros
cheios de doçura e graça
da moça dourada no chão do poema.
Quero despir Ipanema
prenhe de Leilas e Helôs,
e com o cheiro da cor de ruidosas manhãs
e a ternura dos velhos e cães do passeio,
quero vestir o poema.
Um poema cosido no tear das horas,
filho da memória das cãs de Ipanema:
a banda, o cinema, a bossa, o pasquim,
os bares, o píer, as dunas, as vagas,
as límpidas águas, negando o tupi,
Vinícius à lira em busca de Tom,
pecados sepultos na paz da matriz.
Um poema de sons e vertigens
grafados na língua de Chevalier.
Ah, Ipanema!
Roniquito dorme à luz dos “postes bêbados”.
Notívagos bebem, ordenhando a noite
nos bancos da bossa,
e o leite-canção que sobeja o poema
- maná de Ipanema - alimenta as almas
fora dos muros da tribo.
É preciso fazer um poema sobre Ipanema...
Mas eu nunca fui lá.

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